Wednesday, September 20, 2017

mãe!


É lamentável, embora não totalmente surpreendente, que “mãe!”, o mais recente filme escrito e dirigido por Darren Aronofsky, tenha sido recebido com vaias em sua estreia no Festival de Veneza. Também não surpreende que o primeiro final de semana de exibição, nos Estados Unidos, tenha sido decepcionante (arrecadou 7,5 milhões de dólares contra 60 milhões de “It – A Coisa”). “mãe!” só será digerido e eventualmente admirado se o espectador compreender que praticamente tudo o que está na tela é alegoria, não representação real. O que, convenhamos, é um exercício pouco habitual para a maior parte das plateias.

A própria sinopse já revela o nonsense: o casal formado por um poeta em bloqueio criativo (Javier Bardem) e sua esposa (Jennifer Lawrence) mora em uma casa isolada que, certa noite, recebe a visita de um homem desconhecido (Ed Harris). Mesmo sem saber de quem se trata, o poeta convida o homem a pernoitar em sua casa para, na manhã seguinte, receber a esposa desse estranho visitante (Michelle Pfeiffer). A relação entre os dois casais, a chegada de dois filhos dos visitantes e eventos que incluem violência e morte tencionam a relação entre o poeta e sua esposa, que se descobre grávida. O desenrolar da gestação ocorre em paralelo à volta do poeta à ativa, e a história se encaminha para seu desfecho com o nascimento do filho e o lançamento do novo poema.

Ir além na descrição da história é impossível sem entregar pontos-chave da trama, algo que só vai estar presente na segunda parte deste texto, com alerta de spoilers. Também parece coerente certa decepção da plateia em relação a “mãe!” partindo-se do trailer divulgado nas semanas anteriores ao lançamento, que apresentava o filme como uma espécie de “O bebê de Rosemary” revisitado. Os dois filmes, de fato, têm alguns pontos em comum, mas não a ponto de “mãe!” poder ser considerado uma releitura do filme de Roman Polansky.

Do ponto de vista cinematográfico, “mãe!” oferece diversos elementos que reforçam a capacidade criativa de Aronofsky, criador de “Cisne Negro”, “O Lutador”, “Réquiem para um sonho”, entre outros. Estruturado quase como uma peça de teatro, inclusive nas interpretações, o novo filme exala claustrofobia em suas primeiras sequências. Imagens em primeiríssimo plano, fechadas nos rostos dos personagens, acentuam a sensação de aprisionamento.

Praticamente sem trilha sonora em seus primeiros dois atos, o filme tem design sonoro preciso, utilizando sons, como de objetos caindo ou se quebrando (recorrentes no filme) como marcadores de ritmo e criadores de tensão. À medida que o filme avança para seu segundo ato, os planos começam a se tornar menos fechados e a câmera, mais ágil. A cena da briga entre os filhos do casal Ed Harris-Michelle Pfeiffer injeta energia no ambiente sem abandonar o caráter onírico que permeia praticamente todo o filme.

Não é à toa que os personagens sejam aqui descritos sem nomes, já que é desta forma que eles se apresentam todo o tempo, algo que pode ser visto como chave para a interpretação daquela história aparentemente sem nexo. Nesse ambiente impessoal, no entanto, a composição dos dois personagens centrais – o poeta e sua musa – é irrepreensível, tanto do ponto de vista de interpretação quanto de direção. Mais que isso: o roteiro de Aronofsky oferece todos os gatilhos para que o espectador rapidamente se identifique e entenda as motivações de ambos, chegando ao final da história completamente envolvido por aquele casal. Se – e somente se – entender a grande alegoria desfiada em situações tão exóticas nos 121 minutos de filme.

Mãe! – uma interpretação, com spoilers

"mãe!" é uma obra aberta como poucas têm surgido no cinema norte-americano nos últimos tempos. A interpretação a seguir é uma possibilidade, a partir de percepções subjetivas, e o define como uma alegoria do artista em seu processo criativo. Mas parece evidente que o balaio de “mãe!” comporta múltiplas visões, que têm se estendido por temas tão diversos quanto ecologia (a “mãe” feita por Lawrence como representação do planeta Terra) a intolerância religiosa.


Em uma das primeiras cenas, o personagem de Javier Bardem aparece segurando uma pedra, logo identificada como preciosa, pelo lugar de destaque que ela passa a ocupar em um nicho da sua estante. Também nas primeiras sequências, o filme introduz a figura da esposa do personagem, Jennifer Lawrence, a todo instante definida por ele como sua “musa”.

Para além da relação de um casal, o filme ganha muito mais sentido se for percebido como um momento na vida de um artista no qual ele se encontra em bloqueio criativo e dialoga com suas referências e fantasmas. Sob essa perspectiva, tudo o que se vê na tela é a mente desse artista debatendo-se com elementos afetivos, sociais, sexuais, históricos, religiosos (o fogo, o inferno, a culpa, o apocalipse, está tudo lá) – formadores de sua obra – e agarrando-se ao aspecto aparentemente mais frágil, intocado e etéreo de todos – sua inspiração. A personagem de Jennifer Lawrence não seria, sob essa perspectiva, a esposa do poeta que dá à luz seu filho, mas a inspiração que lhe permite gerar e parir novas obras.

Isolado do mundo, cultivando sua inspiração, o poeta sabe-se impotente diante da prevalência de tudo que já habitou sua história. O homem moribundo que lhe bate à porta (Ed Harris) surgiria como a figura do pai – o seu próprio pai, ou ele mesmo, como pai/criador de sua obra. A morte iminente do visitante, uma representação da finitude de sua existência.

A esposa desse homem (Michelle Pfeiffer), uma síntese de figuras femininas, misturando a altivez de uma mãe dominadora com a sensualidade de uma mulher plena, quase cruel. Enxergando o personagem de Bardem como um artista/poeta, é quase lógico enxergar nessa visão a fragilidade de um ser sensível diante de uma figura que transpareça, ao mesmo tempo, segurança e provocação, ternura e luxúria.



Os filhos deste casal – Caim e Abel redivivos – o símbolo de uma fraternidade que se autodestrói, podendo ser ao mesmo tempo a humanidade condenada a seus flagelos, pelo pecado original, ou os produtos da mente do poeta – seus escritos – duelando pela condição de obra-prima.

É quando se desprende dessa herança primária aprisionadora que o poeta finalmente entrega-se à inspiração (sua musa) e se deixa fundir com sua seiva. Fecundada, a musa sabe-se pronta a dar frutos (tanto que já não bebe a poção amarelo-ouro que parece lhe servir como combustível). Grávida, ela anuncia que o bebê se moveu em seu ventre. E o poeta confirma: são os primeiros versos nascendo de sua pena. O filho-poema vai crescendo em ambiente de aparente paz, ainda que a musa-inspiração se depare, vez ou outra, com sinais inequívocos de que o ímpeto criativo brota por todos os poros daquela casa-cérebro, que verte sangue pelas paredes.


Prestes a dar à luz, a musa surge em representação perfeita de uma deusa grega – e não custa lembrar que o Olimpo contava com nove musas entre suas divindades. Pressionado por sua editora e por seu público a divulgar a nova obra, o poeta já não disfarça que talvez sinta tanto prazer e orgulho por ter escrito o poema quanto por ser idolatrado. Não se furta a deixar que invadam sua casa-mente para demonstrar sua admiração, sua idolatria, seu fanatismo, sua cegueira. O bebê-poema que chega ao público cumprirá seu destino quando for recebido, possuído, consumido pela horda insana.


À musa – produto de sua mente, criada para alimentá-lo com um amor desmedido (em certo ponto, ela diz: “Você nunca me amou, você amava o meu amor por você.”) – apenas sobrará o caminho de consumir-se no fogo da culpa (cristã?) daquela mente. Ela lhe rendeu o diamante que ele lapidou e transformou em novo poema. Mas ele continuará sangrando o desejo irrefreável de produzir novamente. Para isso, criará em sua casa em escombros mais um artifício para alimentar sua alma – outra musa.

Sunday, September 03, 2017

Bingo e a memória afetiva dos anos 1980


Eu assistiria "Bingo, o rei das manhãs" mais algumas vezes nem que fosse apenas pela magnífica cena em plano sequência, no primeiro ato do filme. Nela, o protagonista interpretado por Vladimir Brichta caminha por um corredor, acessa um estúdio, adentra o cenário e tem conversas intercaladas com outros dois personagens. Simples, adequada, sem loopings mirabolantes de câmeras, a sequência funciona como uma espécie de marca registrada do diretor, Daniel Rezende.

Marca registrada? Em um primeiro longa metragem? Espera. Lembra de "Cidade de Deus"? A cena da galinha? A famosa cena da galinha? O que une as duas obras? Ele mesmo, Daniel Rezende, responsável pela montagem de "Cidade de Deus" e de uma extensa filmografia que inclui "Narradores de Javé", "Diários de Motocicleta", "Ensaio sobre a Cegueira", "A Árvore da Vida", entre outros. O domínio da ação e dos movimentos de câmera é evidente em "Bingo, o rei das manhãs", mas está longe de ser sua única virtude.

O roteiro retrata o ator Augusto Mendes (baseado no verídico Arlindo Barreto, vivido por Brichta), o primeiro palhaço Bozo do programa infantil levado ao ar pelo SBT, nos anos 1980. Filho da também atriz Márcia de Windsor (Márcia Mendes, na trama, interpretada por Ana Lúcia Torre), Barreto mantinha uma pouco notável carreira de ator antes de ser escolhido para viver o palhaço no programa infantil, reprodução local de uma franquia de entretenimento norte-americana. Subvertendo alguns padrões originais, o programa alcançou a liderança da audiência no período da manhã e catapultou Barreto a uma fama "de mentira", já que, por contrato, sua identidade não podia ser revelada.

"Bingo" é estruturado de forma clássica, em três atos distintos - a frustração do início da carreira, a fama (somada à trinca álcool, sexo e drogas) e o desfecho unindo decadência e redenção. Com roteiro de Luiz Bolognesi, o filme mescla diálogos ágeis e eventualmente cômicos (especialmente pelo contexto) a cenas de grande peso dramático, e a alta saturação de imagens nesses momentos, somada a uma trilha sonora excessivamente tensa, talvez seja o único deslize do filme.

Já que se trata de um filme sobre televisão, Rezende brinca com a textura das imagens de forma admirável ao longo das quase duas horas de projeção. A imagem límpida captada no estúdio transforma-se na visão granulada dos antigos aparelhos de TV "de tubo", reforçando a dubiedade daquele personagem que se torna uma celebridade, paradoxalmente escondida em uma identidade secreta.

Para as gerações que cresceram nos anos 1980, "Bingo" é pura memória afetiva: o Opala laranja 4.1 do protagonista, os cabelos repicados no estilo Farah Fawcett, as fitas cassete BASF, a secretária eletrônica, o despacho da Censura que antecedia cada programa de TV, usado aqui para apresentar o filme, no breve crédito de abertura. Méritos para a direção de arte, a cargo de Cassio Amarante, e para o figurino, de Verônica Julian. E, aumentando a sensação de nostalgia dos anos 1980, "Bingo" ainda aposta em uma trilha sonora que mistura Titãs, Echo and the Bunnymen, Gretchen, Metrô, David Bowie, entre outros.

Se o obscuro Augusto Mendes rapidamente se torna alvo de simpatia do espectador, grande parte do mérito deve-se a Vladimir Brichta, que consegue imprimir no personagem doses generosas de fragilidade, ironia, malícia, astúcia e afeto. E faz isso de forma alternada, com e sem a espessa pintura de palhaço que o transforma em "Bingo". Graças a isso, em um momento é possível ver um ator de cara limpa assumindo expressões histriônicas, como se estivesse no picadeiro, e, em outro, um palhaço entregando toda tristeza no olhar de quem acabou de arruinar o dia do próprio filho.

Melancólico em seu ato final, "Bingo" ainda brinda o espectador com mais uma sequência longa, francamente inspirada em "Birdman", de Alejandro Iñárritu, retratando a decadência e a redenção do personagem, em um desfecho que pode soar moralizante. No entanto, a habilidade do roteirista, em traçar um paralelo entre arte e religião, revela-se como a solução sagaz para contar o fato, sem deixar de refletir sobre ele.

Sunday, July 16, 2017

Carros 3: a mulher e o espaço concedido

O novato Jackson Storm (à esquerda) e Relâmpago McQueen
A franquia “Carros” beneficiou-se largamente da evolução das técnicas de animação no intervalo de onze anos que separa o primeiro filme da série, de 2006, do terceiro, recém-lançadono Brasil. As cenas de corrida são realistas a ponto de parecerem transmissões de provas de Nascar, o campeonato norte-americano mais famoso de carros de turismo. E aparece aí um dos problemas de “Carros 3”: são poucas cenas de corrida.

É certo que, desde o primeiro filme, a franquia “Carros” apoia-se no automobilismo como pano de fundo para discutir outras questões: a tradição suplantada pela modernidade, o surgimento de cidades-fantasma, a desvalorização de pessoas e profissionais mais velhos, meio ambiente, ganância, lealdade e amizade. Não é diferente agora: “Carros 3” é um filme sobre conflito de gerações, não sobre corrida. Mas é uma pena que justamente o melhor do longa – as corridas – ocupe tão pouco espaço, na comparação com as cenas de fundo moral.

Relâmpago McQueen, o personagem principal da franquia, é apresentado neste terceiro filme como um veterano multicampeão da Copa Pistão, vencendo corridas e campeonatos quase “no piloto automático” e vivenciando a competição com seus pares em clima de camaradagem. Até que uma nova geração de pilotos – forjada em simuladores de corrida – desembarca na categoria, liderada pelo novato Jackson Storm, e começa a desbancar os velhos competidores. Na ânsia por recuperar o antigo posto, McQueen sofre um acidente. Na volta às pistas, conta com o apoio de um novo patrão, que comprou sua antiga equipe, e a assessoria de uma preparadora de pilotos, Cruz Ramirez.

McQueen e a preparadora Cruz Ramirez

A ação do filme será toda centrada nessa nova dupla – McQueen e Ramirez – e é justamente nessa relação que o filme vai se apoiar para mostrar o choque de gerações. A ideia é contrapor o velho Hudson Hornet, antigo tutor de McQueen, mostrado em muitas e sentimentais cenas de flashback, a McQueen e sua jovem preparadora. Um “baby boomer”, um representante da geração X e um millenial: a reflexão sai das pistas e se aloja em praticamente qualquer ambiente corporativo.

Essa discussão de valores entre gerações ocupa a maior parte do filme e compromete enormemente o ritmo de “Carros 3”, ainda que o roteiro tire da cartola uma exótica prova disputada na terra, em uma sequência com elementos inusitados de “2001 – Uma odisseia no espaço”, “Kill Bill” e “Clube da Luta”. É nesta sequência que o filme introduz uma personagem feminina que começa a delinear a virada da história. Miss Friter, uma jamanta brutamontes, é a corredora “fêmea” com prazer sádico em derrotar os adversários. Depois dela, o espectador vai conhecer Louise Nash, uma veterana dos tempos de Hudson Hornet que diz ter roubado a credencial para poder participar de uma prova, algo vedado a “mulheres” na sua época.

Miss Friter: jamanta brutamontes sádica

A inclusão feminina na disputa surge como um alento naquele universo cheio de testosterona da franquia “Carros”, mas ainda que apareçam como inspiração para a grande virada da história, em seu ato final, a condução dessa virada soa frustrante. Ao contrário das antecessoras, a nova competidora alçará seu posto em um claro movimento de concessão masculina, aplicada como antídoto à sua evidente insegurança.


A impressão que fica, ao final de “Carros 3”, é a de que a Disney conduziu pesquisas junto à audiência que mostraram a necessidade de um maior protagonismo das mulheres na história. Sabe aquela situação? “Precisamos falar alguma coisa sobre as mulheres. ” E o excelentíssimo vai lá e fala que mulher é importante para conferir os preços no mercado. Mais ou menos isso.

Friday, July 07, 2017

Poesia sem fim: a arte catártica de Jodorowsky

Vida passada a limpo pelo crivo da arte
“Na velhice, você se desprende de tudo. ” Surgindo como uma espécie de consciência de si mesmo no autobiográfico “Poesia sem fim”, o diretor chileno Alejandro Jodorowsky, aos 88 anos, verbaliza ao final de seu mais recente longa algo que vai se tornando claro ao espectador durante os 128 minutos de filme. Aquele é um exercício catártico, de um homem apaziguado com seus dramas familiares, mas de um artista inquieto, em que pese a idade.

O conselho de desprendimento para o jovem artista, vivido por Adam Jodorowsky (filho do diretor), parece seguido à risca na concepção do filme. O velho diretor desprende-se inclusive do simulacro que habitualmente cerca a obra de arte e, logo no início, Jodorowsky menino surge ao lado dos pais em um bairro que não se pretende outra coisa que não cenário. O recurso vai se repetir muitas vezes durante o filme, com homens vestidos de preto compondo ou desconstruindo ambientes, sem cerimônia.

O jovem Alejandro (Jeremias Herkovits) e o diretor, enquanto consciência
Como em seu longa anterior, “A Dança da Realidade”, primeira parte dessa jornada autobiográfica, os pais do artista surgem em representações alegóricas. O pai, vivido por outro filho do diretor, Brontis Jodorowsky, é um tirano de inclinações nazistas, que oprime inclemente a vocação artística do garoto. A mãe, uma iídiche mama típica, vivida pela extraordinária Pamela Flores, canta dramaticamente todas as suas falas, como se estivesse em uma ópera eterna. Já no início do filme, um elemento visual importante surge na tela: bicicletas, e elas voltarão à história em momentos cruciais da narrativa.

A ruptura do jovem Alejandro com a família não poderia ser mais literal. Ao ceifar a árvore no quintal da avó, ele se desprende de sua genealogia e assume o risco de ser artista, abraçando uma vida que será, em tudo, diferente da rotina familiar. A paleta de cores do filme acompanha a mudança. Saem o marrom, o ocre e o vermelho envelhecido da casa paterna para explodirem as cores vivas dos artistas e das obras que passam a circundar Alejandro.

A presença dramática da mãe permanecerá relevante, transformada na colossal mulher que se apresenta como a primeira relação amorosa de Alejandro. Freud explica. E continuará explicando com a presença de espelhos que se multiplicam na história, como no personagem Enrique Lihn (Leandro Taub), quase um duplo do jovem poeta.

O espelho: presença recorrente em "Poesia sem fim"

Com fotografia de Christopher Doyle, “Poesia sem fim” não se pretende nunca naturalista. Se esta é uma história de vida passada a limpo, ela chega pelo crivo da arte, como se saída mesmo da mente do artista, em cores por vezes fortes e contrastantes, em outras, opacas e minimalistas. Os cenários e as situações são surreais, os diálogos, muito mais idealizados do que realistas. Cercado de uma trupe de artistas, de novo Alejandro se vê cercado de bicicletas, como no cabide da casa de Enrique Lihn ou no passeio que leva o grupo de volta ao bairro da infância do poeta.

O rescaldo da antiga residência revela objetos e lembranças dos tempos da opressão paterna e da presença ostensiva da mãe. Entre eles, de novo, a bicicleta, agora queimada, como símbolo da ruptura definitiva, um “rosebud” às avessas. A cinta da mãe, presa a balões que a elevam para a liberdade do céu, surge como homenagem àquela figura trágica que talvez tenha sido tão ou mais vítima do jugo paterno que o jovem Alejandro. O ambiente do país, entregue a um salvador da pátria fascista, típico das Américas, ancorado na perene luta contra a corrupção, oferece o argumento definitivo para a partida do poeta.


Alejandro segue para a Europa, não sem antes confrontar-se novamente com o pai, lutando literalmente com o velho tirano, depois de quebrar... um espelho. Filme ou psicanálise? Freud na veia, de novo. “Ao não me dar nada, você me deu tudo”, diz o filho já envelhecido para o pai, em uma conciliação só possível pela arte. Poesia pura, “Poesia sem fim”.

Wednesday, June 14, 2017

Minha namorada é meuzovo

O poeta Vinicius de Moraes, autor da letra de "Minha namorada"

Minha educação cultural começou pela via do "bom gosto". Lia clássicos, estudava música em conservatório, procurava os filmes mais estrelados pelos críticos. Foi importante para construir o hábito de fruição da arte.

A vida adulta desconstruiu quase tudo. Gente como Paulo Cesar de Araújo e, acima de todos, Pedro Alexandre Sanches, foram muito responsáveis por isso. O que é "bom gosto"? Por que Bossa Nova é melhor do que Funk? Marcel Proust ou história em quadrinhos? Ingmar Bergman ou Jackie Chan? Por que UM ou OUTRO?

Nessa desconstrução, o hábito de despir os medalhões e enxergar para além do rigor dos versos. Por exemplo, o machismo inerente em alguns "clássicos" da música brasileira. E nunca mais consegui ouvi-los sem que a editora feminista que mora em mim gritasse essa desconstrução.

"Minha namorada", música de Carlos Lyra e letra de Vinicius de Moraes, por exemplo:

Se você quer ser minha namorada
Ah, que linda namorada
Você poderia ser
(Nota da editora feminista: o cara já está assumindo – você é gata e estou a fim, aqui estão minhas condições, vê se você se enquadra)
Se quiser ser somente minha
(Nota da editora feminista: somente minha, entendeu? Quer tomar posse)
Exatamente essa coisinha
(Nota da editora feminista: chamou de “coisinha”, miga. Não preciso nem ir além na objetificação da pessoa, na diminuição etc. né?)
Essa coisa toda minha
(Nota da editora feminista: minha, minha, minha – esse cara é o Tio Patinhas?)
Que ninguém mais pode ser
(Nota da editora feminista: ah, mas que beleza de verso capcioso: ele diz que ninguém mais pode ser dele desse jeito. Jura de fidelidade? Vai nessa... Em algum lugar ele disse que ELE não pode ser de ninguém? A obsessão aqui é você, miga)
 Você tem que me fazer um juramento
(Nota da editora feminista: opa! Não basta a carta de intenções dele. Você tem que jurar por ela)
De só ter um pensamento
(Nota da editora feminista: não é  só que você não pode ser de ninguém mais. O cara quer vigiar até o que passa pela sua cabeça)
Ser só minha até morrer
(Nota da editora feminista: OK, a intenção pode até ter sido “um amor eterno, por toda a vida”, que será desconstruído adiante, mas esse “até morrer” me deu um arrepio)
E também de não perder esse jeitinho
De falar devagarinho
(Nota da editora feminista: jeitinho, devagarinho – tudo da família da “coisinha” lá de cima)
Essas histórias de você
(Nota da editora feminista: claro que você só vai ter histórias de você para contar para ele, porque o bofe está querendo te colocar numa gaiola, vai falar do que mais?)
E de repente me fazer muito carinho
(Nota da editora feminista: é pra isso que você está lá, afinal)
E chorar bem de mansinho
(Nota da editora feminista: oi? O ideal de romance para esse psicopata é te ver CHORANDO? Esse homem é um sádico)
Sem ninguém saber por quê
(Nota da editora feminista: essa eu não sei nem por onde começar – ninguém vai saber... por quê? Porque briga de marido e mulher ninguém mete a colher? Porque “eu posso não saber por que estou batendo, mas ela sabe por que está apanhando”? Ou simplesmente porque ele acha – e gosta da ideia – de que mulher chora à toa?)
Porém, se mais do que minha namorada
Você quer ser minha amada
Minha amada, mas amada pra valer
(Nota da editora feminista: peraí, esse mundo maravilhoso que ele está descrevendo tem mais a oferecer...)
Aquela amada pelo amor predestinada
Sem a qual a vida é nada
Sem a qual se quer morrer
(Nota da editora feminista: pronto. Ele acabou de depositar em você a responsabilidade pela vida DELE.)
Você tem que vir comigo em meu caminho
(Nota da editora feminista: até que demorou para ele dizer, de novo, o que você TEM que fazer)
E talvez o meu caminho seja triste pra você
(Nota da editora feminista: Rá! Não falha nunca: “estou avisando antes, não vá reclamar depois”)
Os seus olhos têm que ser só dos meus olhos
(Nota da editora feminista: não tinha ficado claro, ainda, que você não vai poder olhar pros lados?)
Os seus braços o meu ninho
(Nota da editora feminista: porque, obviamente, ele TINHA que te colocar no lugar da mãe dele)
No silêncio de depois
(Nota da editora feminista: depois do quê? Do ato? Silêncio? Vira pro lado e dorme?)
E você tem que ser a estrela derradeira
(Nota da editora feminista: você TEM que ser, entendeu?)
Minha amiga e companheira
(Nota da editora feminista: porque, além de namorada, amada e mãe, você também tem que exercer aquela camaradagem dos amigos, aquela compreensão, aquela companhia nos programas que ele quiser fazer etc.)
No infinito de nós dois

(Nota da editora feminista: considerando que o poeta em questão apregoava o “infinito enquanto dure”, é só juntar lé com cré: ele sabe que o troço vai acabar – como sempre acaba – mas enquanto durar, é tudo do jeito dele, entendeu?)

Nego do Borel e Anitta: aqui, não

Mais de cinquenta anos depois dessa estética e da lógica da Bossa Nova, a música popular continua idealizando o comportamento das mina. O Nego do Borel, por exemplo, chora o desprezo da moça que partiu seu coração e que agora, como prêmio, pode virar só "um pedacinho do esquema dele". Mas... sinal dos tempos, Anitta responde que nunca quis esse coração ("minha namorada" é meuzovo). Bossa Nova melhor que Funk? Pra quem?  

Monday, May 29, 2017

Corra! e o terror social ianque

"Corra!", longa de estreia de Jordan Peele
Pessoas brancas que sempre fizeram três refeições por dia e frequentaram a escola poderão ter dificuldade em perceber que a primeira sequência de “Corra!”, escrito e roteirizado por Jordan Peele contém alta concentração de ironia. Nela, um jovem negro percorre ruas de um bairro de classe média falando ao celular até perceber que está sendo seguido por um carro de luxo. O desfecho da cena reflete o horror que pessoas brancas costumam experimentar, na vida real, ao frequentar bairros pobres, falando ao celular, seguidas por veículos populares caindo aos pedaços.

Mas esta relação inversa dificilmente saltará aos olhos da maior parte da plateia. Falamos em horror? Pois é disso que se trata. A ilação social a partir da sequência de abertura brotará mais tarde, porque rapidamente todos os elementos de um filme de horror serão enfileirados, jogando o espectador em uma atmosfera de suspense e incompreensão irresistível.

O jovem fotógrafo negro Chris Washington (Daniel Kaluuya) namora Rose Armitage (Allison Williams), uma garota branca que o convida a passar o fim de semana na casa dos pais, um neurocirurgião e uma psiquiatra (Bradley Witford e Catherine Keener). A tensão de visitar a família da namorada no interior é compartilhada com o amigo Rod (LilRel Howery), um agente da polícia especial que atua em aeroportos. Ainda que Rose tenha tranquilizado Chris quanto à receptividade dos pais em relação à questão racial (“Meu pai votaria em Obama uma terceira vez se pudesse”), Chris logo percebe que há algo de errado e sinistro naquela casa, com aquela família e com as pessoas que a frequentam.

O negro no centro das atenções: fetiche
Um dos aspectos mais admiráveis de “Corra!” é nunca esconder sua intenção em ser um filme de horror: estão lá as cenas no escuro, a alternância entre normalidade e suspense, os planos fechados na expressão dos personagens, o design sonoro que não se furta em plantar acordes sinistros e trilhas em crescendo com a nítida intenção de preparar ou de assustar o espectador. Mas “Corra!” é muito mais que um filme de terror, pois ao lado da trama surrealista está o horror social adjacente da sociedade norte-americana.

Não é à toa que, logo no início do filme, o pai de Rose faça referência a Jesse Owens, o atleta negro norte-americano que humilhou Hitler na Olimpíada de Berlim, em 1936. Ao expor o orgulho ianque que derrotou o nazismo, enaltecendo a força física dos afrodescendentes, o neurocirurgião expõe o fetiche da sociedade americana pelos negros, e sua tendência/desejo/obsessão em dominá-los.

E é igualmente notável que o diretor e roteirista Jordan Peele utilize alegorias tão sutis para estabelecer esta relação. Pois se a jovem Rose atrai Chris para o centro dessa estranha sociedade valendo-se basicamente de um canto de sereia fundamentado em sedução e inocência (o domínio do corpo), será pela hipnose (o domínio da mente) que a estratégia daquele estranho grupo deverá se consolidar. 

A transformação de Rose, por sinal, é evidente no terceiro ato do filme e reforça a intenção de crueldade por trás dos primeiros gestos. A moça de franja, com visual inocente e quase infantil (ela chega a usar uma blusa listrada idêntica à do personagem principal de “Onde está Wally?”) torna-se uma mulher séria, com a testa à mostra, já sem a preocupação de esconder-se por trás de uma fachada cuja função era meramente atrair aquele incauto.

Rose, enquanto "Wally"
Também sutil, a relação caça/caçador plantada no início da trama fecha-se lindamente ao seu final, quando Chris utiliza justamente a cabeça de um animal empalhado para dar cabo de um de seus algozes, incutindo a possibilidade de reação a essa parcela oprimida da sociedade. Em um personagem, o resumo de uma longa trajetória de subserviência: da escravidão dos primórdios (o corpo) à doutrinação pós-moderna (a mente, dominada por conceitos que se espalham desde o discurso abertamente racista de parte daquela nação até os apelos da sociedade consumista espraiados indistintamente, e que seguem escravizando esse enorme contingente social).

Mesmo que “Corra!” opte por resolver a trama com recursos um tanto preguiçosos de roteiro (a indefectível caixa guardada em um sótão que revela um segredo; o personagem nitidamente plantado para esclarecer a trama ao protagonista), o longa de estreia de Jordan Peele é daqueles filmes que elevam a obra de arte à categoria de elemento detonador de reflexão. Ainda que a arte, por definição, não precise se prestar a nada, tendo fim em si mesma, certos produtos não se contêm, pela natureza de sua narrativa. Basta ter olhos, ouvidos e sensibilidade para embarcar junto com eles.

Monday, April 17, 2017

Brasil em Cena

Julio Machado e Isabél Zuaa, em cena de "Joaquim", que estreia dia 20 de abril

A partir de hoje, meus textos também poderão ser lidos no site "Cinema em Cena", em uma nova coluna chamada "Brasil em Cena", dedicada à produção audiovisual no Brasil. Na primeira coluna, o destaque é o filme "Joaquim", o quinto longa do diretor pernambucano Marcelo Gomes. Entrevistei o Marcelo e dois atores do filme - Julio Machado e Isabél Zuaa. O conteúdo todo está aqui.

Só um trechinho da entrevista com o Marcelo, dando o tom:

Cinema em Cena – Existe um paralelo entre o Brasil Colonial de “Joaquim” e o momento atual do Brasil?
Marcelo Gomes – Acho que os personagens são muito contemporâneos, porque são contraditórios, humanos, têm objetivos muito específicos, pensam neles mesmos, porque estão em um momento salve-se quem puder. A ética da época faz com que Joaquim, mesmo cultivando pensamentos “humanistas”, não ache estranho ter escravos. Mas isso não é muito diferente de agora. A elite brasileira acha normal ter uma pessoa para limpar seu banheiro. Nós ainda precisamos viver um processo de descolonização na nossa cabeça, porque isso está presente até hoje, impregnado. Quando você chega a um edifício, em São Paulo, construído nos anos 70, 220 anos depois desse período, tem dois elevadores, o social e o de serviço, aí você chega na casa e tem duas portas, a social e a de serviço. Um europeu chega aqui e pergunta: o que é isso? É a casa grande e senzala verticalizada. Muda a face, mas no âmago está tudo ali.
Aqui, um trecho da entrevista com Isabél Zuaa:
Cinema em Cena – A mulher negra segue sendo a maior vítima na nossa sociedade?
Isabél Zuaa - No cinema, como na vida, a mulher negra é costumeiramente vista como o final da cadeia alimentar. Ela é vista para servir, ela é a barraqueira, mas por quê? Porque ela usa essas estratégias de resistência, como a Preta faz no filme: ela tem uma força física e uma força psicológica. Ela mata um homem e, diante de tudo que ela sofreu, o espectador se identifica com o gesto porque percebe que aquela foi uma reação, uma legítima defesa. O que a Preta faz com sua própria vida, no filme, é o que a gente chama hoje de empoderamento: é a reação de uma mulher negra em uma sociedade hostil a ela. E essa sociedade hostil continua, para mim. No entanto, eu tenho outros mecanismos para me impor, não precisei matar e fugir, mas eu tenho pessoas na família que precisaram fugir. Meus pais são africanos e passaram por duas guerras, em dois países africanos colonizados por Portugal. As consequências se mantêm: sabe lá o que alguém tirar você da sua terra e te dizer “você não pertence mais a esse lugar”? Isso é de uma violência extrema.
E um pedaço da conversa com Julio Machado:
Cinema em Cena – O protesto que a equipe fez, em Berlim, contra o atual governo no Brasil, traz algum temor em relação ao filme e à sua carreira?
Julio Machado - Nenhum temor! Estar vivo não permite ensaio. As coisas vão chegando e, se isso (um boicote ao filme) acontecer vai ser mais uma oportunidade para se revelar a mesquinharia dessa reação reacionária da nossa sociedade bipolar, que não se conhece. Que se enxerga no americano e no europeu e não se conhece, nunca leu um livro de história e fica tentando fazer discurso político sem conhecer nada. É uma distorção completa. É uma situação que a gente vê no filme como gênese e segue aí. Não tenho temor algum. Eu quero mais é que essas pessoas se revelem, que elas se manifestem, mas não escondidas atrás de um computador.